“Nossa vinícola, pioneira na Serra Catarinense, tem o privilégio de estar nesse terroir extraordinário, a Lomba Seca, aqui nos altos de São Joaquim. O interesse da mídia, certamente, se deve à qualidade dos vinhos que produzimos”, reforça o engenheiro civil Gerson de Borba Dias, sócio da vinícola e entrevistado na reportagem abaixo reproduzida.

” Além do frio, a cidade de São Joaquim quer ser conhecida pelos seus vinhos

Com mais de 30 vinícolas, a cidade catarinense já produz 1,5 milhão de garrafas por ano e conquista selo de indicação geográfica, que classifica os produtos do município como “vinho de altitude” Economia Economia Além do frio, a cidade de São Joaquim quer ser conhecida pelos seus vinhos

Fernando Scheller, O Estado de S.Paulo
02 de março de 2022 | 05h00

A maioria dos brasileiros é lembrada da existência de São Joaquim todos os anos, em junho ou julho, quando um repórter de TV aparece em frente a um relógio de rua, mostrando a temperatura negativa e anunciando a possibilidade de neve. O que a maioria ainda não sabe é que, há cerca de 20 anos, a cidade desenvolve outra vocação: a produção de vinhos. Hoje, são cerca de 35 vinícolas, que acabaram de ganhar um estímulo a mais: o selo de indicação geográfica, que classifica o produto de São Joaquim como “vinho de altitude”.

De acordo com Humberto Conti, presidente da Vinhos de Altitude Produtores Associados, o selo, concedido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) no ano passado, reforça o trabalho que já vem sendo feito pelos produtores há alguns anos. É um trabalho que, segundo ele, exige uma boa dose de relacionamento com o poder público. Conti diz que, enfim, negociou com o governo do Estado o asfaltamento dos acessos a todas as vinícolas – muitas, até hoje, ainda têm acesso de terra batida.

Aficionado pela bebida, o engenheiro Gerson de Borba Dias investiu na Quinta da Neve com 4 sócios Foto: Jair Sena/Estadão

Somadas, as vinícolas produzem cerca de 1,5 milhão de garrafas de vinho e espumante por ano – Conti, também produtor e dono da Villaggio Conti, admite que é pouco. “Somados, produzimos menos do que uma Salton”, diz o representante da entidade, que reúne 26 das 35 companhias do gênero em São Joaquim e região. Ele pondera que os vinhos vêm ganhando prêmios e fama entre quem entende da bebida. E, aos poucos, novos empreendedores apostam na produção em terras altas e frias.

Retomada

Uma das primeiras vinícolas a surgir em São Joaquim, ainda no fim dos anos 1990, foi a Quinta da Neve. Apesar do pioneirismo, não conseguiu atingir a fama de outra “fundadora”, a Villa Francioni, que produz sozinha 300 mil garrafas ao ano, além de ter boa estrutura de turismo, incluindo um restaurante famoso entre os visitantes. A Quinta da Neve, durante vários anos, ficou nas mãos da distribuidora Decanter, que não via o negócio como sua atividade principal.

Depois de anos à venda, a vinícola ganhou novos sócios no ano passado, que têm grandes planos para o local. A Quinta da Neve, hoje com capacidade de produzir 60 mil garrafas ao ano, foi arrematada por R$ 10 milhões por cinco sócios. Entre eles está o engenheiro Gerson de Borba Dias, que durante décadas se dedicou a abrir estradas na região Sul do País. Aficionado por vinhos, o executivo almeja, um dia, viver apenas da vinícola. Com uma produção relativamente pequena – e de custo mais alto, porque os vinhedos de altitude são menos produtivos –, ele sabe que precisa construir um complexo ao redor da vinícola para que o investimento seja lucrativo.

A Quinta da Neve, cujos vinhos partem de R$ 110 no varejo, demandou investimentos. Os últimos meses foram de retoques na vinícola e de mudanças no marketing e no design nos rótulos. Dias prepara projetos voltados ao enoturismo. Como as videiras só ocupam uma pequena parte dos 87 hectares de sua propriedade, ele já está desenvolvendo um projeto de condomínio de casas e de uma pousada para o local.

Vinícolas na Quinta da Neve, em São Joaquim (SC); investimento milionário para reformulação do negócio Foto: Jair Sena/Estadão

Segundo o empresário, São Joaquim está conseguindo, aos poucos, lucrar com os turistas trazidos pelas vinícolas. “As pousadas estão cheias para os próximos meses”, diz Dias, lembrando que a cidade está desenvolvendo projetos culturais, como um festival de jazz.

Para Conti, da associação de produtores, o problema é que São Joaquim esbarra em uma estrutura deficiente: “Falta opção de hospedagem, a pessoa vem aqui, mas é obrigada a ficar em Urubici”, diz ele, referindo-se à cidade vizinha que se estabeleceu como referência em turismo de aventura. Desafio Apesar dos problemas de infraestrutura, o reposicionamento da Quinta da Neve não é o único novo investimento em curso na região.

Segundo Conti, há algumas vinícolas em fase de maturação dos parreirais, com previsão de início da primeira safra de vinhos para os próximos anos. A maior parte dos investidores é de empresários locais e, como Dias, sem muita experiência em vinhos. Outro projeto em andamento é a melhoria da ligação rodoviária com a serra gaúcha. Essa rota permitiria que os turistas atraídos para o Rio Grande do Sul chegassem mais rapidamente a Santa Catarina, elevando o fluxo de visitantes.

Mesmo que os avanços em infraestrutura se concretizem, o novo sócio da Quinta da Neve sabe que o investimento em uma vinícola é de longo prazo. “A gente pensa em investir por pelo menos seis anos sem ter retorno”, admite. Segundo ele, apesar dos avanços dos anos de pandemia, momento em que o consumo de vinhos explodiu 30% e superou pela primeira vez os dois litros por habitante anuais, o produto brasileiro ainda tem de superar o preconceito do consumidor.

Fonte: Estadão”

 

 

 

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